INFÂNCIA - ADOLÊSCÊNCIA - MATURESCÊNCIA - SENESCÊNCIA
Sou muito jovem para falar de mim; falar sobre o que sou, o que fui ou o que serei, até porque o tempo que vivi não me permitiria contar tantas histórias. Certa noite, enquanto eu passava o tempo no meu quarto, parei para pensar no que ainda tenho para viver, e se tudo isso ainda vale a pena. Lá estava eu, com cinco ou seis anos carregando um lápis e um caderninho que eu costumava levar para cima e para baixo, desenhando tudo o que eu via pela frente. A sala estava vazia e não havia nada que me incomodasse, aliás, não sabia que tipo de coisas me esperariam dalí para frente. Éramos somente eu e meu caderno de desenho. Conforme fui desenhando casinhas mal desenhadas e linhas tortas, árvores redondas e nuvens azuis, não me preocupava com nada. Quem eu seria? Não me importava. Foi nesse momento que me deparei com uma imagem estranha. Olhei para a porta e vi a Nayara de dez anos "depois" entrando carregando uma pilha de livros, com 15 ou 16 anos. Sentou-se no sofá, ligou o som e colocou o CD do Pink Floyd, é...eu conhecia esse tal de "pink floyd", lembro-me bem quando minha mãe colocava o disco de vinil para tocar. Hum...pelo jeito, acabei gostando também, depois que passei a entender mais coisas. Minha outra "idade" continou sentada lendo alguma coisa que eu não pude compreender o que era, ficou fazendo movimentos com os dedos no sofá enquanto lia atentamente o que estava em suas mãos. Como não consegui chamar sua atenção, continuei com meus rabiscos indecifráveis. Levantei-me, com o caderno nas mãos e fui até ela: - Ei? Ela parou de ler e voltou os olhos para mim, esperando por alguma coisa: - Sim? - O que achou do meu desenho? - Ahn, precisa melhorar. Agora continue desenhando, porque eu preciso terminar essa música aqui. - Ah, você nunca dá atenção para mim não é? Você tem medo de voltar a ser criança? - Eu? Claro que não, é que agora tenho que me preocupar com outras coisas. - Não deveria, eu não me esqueci de você. A porta voltou a abrir e novamente entrou a Nayara com 35 anos, usando um casaco por cima de uma roupa formal, os cabelos compridos e não tão desalinhados quanto àquela com 15 anos sentada à minha frente. - O que é isso aqui? - Isso o que? - perguntei ainda segurando meu caderno. - Essa bagunça, todos esses papéis jogados. - disse ela começando a juntar tudo. Depois caminhou até o som e o desligou. - Ei, eu estava ouvindo isso. - disse a adolescente. - Sim, mas agora está ficando tarde e eu quero sossego. - disse-me secamente. Depois continuou me olhando e se aproximou: - Deixe-me ver o que desenhou. Entreguei-lhe o caderno e vi que esta sorria com lágrimas nos olhos. - É...eu consegui o que eu queria. - me disse sorrindo. - Como assim? - perguntei confusa. - Deixe para lá, você tem muito o que aprender. - terminou com alguns pequenos tapas no meu ombro e se levantou olhando para a Nayara de quinze anos: - Ah, e você...continue estudando assim, porque nós chegamos a algum lugar, mas se quer um conhelho, páre e pense em outras coisas que tem para viver. Muitas coisas passam despercebidas porque você não quer parar para enxergar...pense nisso. Um silêncio tomou conta da sala, eu não sabia o que fazer, porque não sabia o que me aguardava e percebi que a Nayara, que ouvia atentamente também parecia não se preocupar muito. Tudo foi interrompido por uma batida sincronizada na porta. A de 35 levantou-se e foi atender a porta: - Pois não? - perguntou a uma senhora com os cabelos presos e com um sorriso estranhamente familiar. - Estou procurando pelo tempo. - Como? - O tempo...me disseram que ele estaria aqui. - disse a ela adentrando vagarosamente na sala. - Acho que não minha senhora. O que está dizendo? - Estou dizendo sobre as coisas que você deixou passar. - Não deixei passar nada, consegui tudo o que eu queria. - fez um gesto apontando as coisas a nossa volta. - Ahh querida... você vai sentir falta de coisas que não fez, de ter arriscado mais, sem ficar presa às névoas que encobrem a visão do ser humano. Ao envelhecer vai perceber isso... - Que tipo de coisas? - perguntei e vi que todos os olhos se voltaram para mim. A senhora abaixou-se na altura dos meus olhos, com alguma dificuldade: - Coisas que você ainda não pode compreender minha pequena. - disse-me e voltou-se para a de 15 anos: - Coisas que você sabe, mas ainda não tem certeza...mesmo assim, é uma jovem que quer fazer o que é certo e tem medo de desapontar alguém. - e por fim, voltou-se para a Nayara de 35 anos: -Coisas que só o tempo e a senescência poderão lhe fazer entender... - ela sorriu e olhou para todas nós. - Mas não se preocupem minhas jovens...vocês ainda têm muito o que aprender.
Escrito por Nayara às 14h11
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